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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Calor humano


Esperava eu nas salas de espera da vida, quando fui recordada, por uma amiga, que nem só nestes espaços o português mostra o seu espírito de partilha em amena comunicação com estranhos.
Lembrava ela que alguns do que esperam nas salas da espera “se sentam perto, demasiado perto, apesar de terem disponíveis trezentos mil lugares e, após alguns minutos, decidem iniciar um diálogo oco, sem sentido e/ou sem qualquer tipo de interesse. Nós lá vamos balbuciando um "pois", um" hum", um "ah", esboçando um sorriso amarelo. Não sei qual a razão mas não desistem, aliás, insistem em encadear tópicos de assuntos sem assunto nenhum!”Lembrei-me imediatamente de tais personagens, identificando-me em tudo com o eleito interlocutor (vulgo vítima) que passa a ansiar ainda mais que chegue a sua vez, mesmo que seja no dentista.
Ora comecei imediatamente a procurar uma explicação para tal facto, e talvez inspirada pela época do ano, pensei: é frio!
Mas logo tal ideia foi derrubada por outra, quando me lembrei de algumas situações em pleno Agosto…
Ah, férias em Agosto… uma das situações que me leva a ponderar mudar de profissão… O trânsito insuportável, as enchentes de gente por todo o lado, as misteriosas subidas de preço em esplanadas e bares… Crianças a guinchar… Palavrões em várias línguas…
Num destes Agostos estávamos, eu e uns amigos, junto a uma piscina. Toalhas e mochilas dispostas num relvado ainda quase vazio, quando de repente uma alegre família decide eleger para posicionamento de toalhas e afins, o espaço a cerca de UM PALMO das nossas coisas. Ficámos lado a lado, ao ponto de termos de nos mover com cautela depois de cada mergulho, para evitar molhar o vizinho. As conversas condicionadas… a tentação de mudar de lugar… E poderão pensar “Que mau feitio, devia ser o último lugar à sombra…” Não era. Aliás estive algum tempo a observar o relvado verdinho, vazio e tentador, para tentar perceber o motivo da eleição do nosso espaço em vez de qualquer outro. Não percebi. A única qualidade daquele espaço era de facto ficar perto de outras pessoas.
E esta é só uma das memórias que acalento. O mesmo se passou por várias vezes na praia, no comboio, no cinema. A busca de calor humano não conhece barreiras, nem locais, nem temperaturas.
Um dos poucos locais ainda preservados, segundo me contam os amigos do sexo oposto, é o WC masculino. Ao que parece, em cada fila de urinóis disponíveis, são preferencialmente ocupados os mais afastados entre si… Vá-se lá entender.

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