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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tásmaverdóculos?



Comecei a usar óculos quando tinha uns 6 anos. Naquela altura, há mais de 20 anos, usar óculos não era propriamente um sinal de estilo, ou de inteligência, era mesmo um sinal de que se via mal.
As outras crianças não eram muito complacentes com quem usava óculos e mimavam os seus utilizadores com termos amorosos como “o cegueta”, “o oculista”, “Eh, caixa-de-óculos” ou “o lunetas”… Eu acho que até fui muito poupada a isto, talvez por ser menina. Naquela época em que o bullying não tinha nome, os rapazes eram vítimas mais frequentes e de maiores crueldades do que nós.
Os óculos para crianças eram verdadeiramente horríveis: todos em metal, prateado ou dourado, sem cores nem bonequinhos. Eram simplesmente como os dos adultos, mas mais pequenos. O meu primeiro par era parecido com os do Ramalho Eanes, mas sem a parte preta em cima. Só lá para o terceiro é que as hastes apareceram em cor de rosa, o que já era uma coisa fora do comum.
Daqui o meu espanto pelo actual fenómeno dos óculos sem graduação! Há hoje pessoas, jovens e não só, que usam óculos sem precisarem, só como acessório de moda. E nada discretos! São de massa preta ou de cores variadas e nos formatos mais estranhos! Tive até alunas que comentavam entre si: “Olha como a não-sei-quantas fica gata com os óculos novos!” (Olhei então discretamente para elas, à procura da gargalhada de gozo, mas não: era a sério!!!) E a outra respondia “Eu sei! Já pedi aos meus pais para me levarem ao médico mas ele disse que eu não precisava porque via bem… Fiquei para morrer!” (E aqui foi quando me caiu o queixo, à frente do quadro…)
Eu acho bem, já disse várias vezes que quando for mais velha vou usar bengala só para o estilo, mesmo que não precise, porque gosto de bengalas, mas nunca imaginei que isto poderia acontecer com os óculos! Devo mesmo estar a começar a ver pior, com a idade…

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Receita de crepes com tudo




E como temos passado muito tempo fora da cozinha, hoje vamos até lá para uma receita super simples e prática: crepes.
Desde pequena que tenho uma predilecção por estas panquecas finas e há pouco tempo lembrei-me porquê. Quando era miúda a minha mãe comprava-me uns livrinhos sobre as aventuras de um ursinho amoroso, o Petzi. Até hoje ainda não conheci ninguém que já tenha sequer ouvido falar desta colecção, mas eu era fã antes mesmo de aprender a ler.
O Petzi passava o tempo quase todo em aventuras no seu navio, o Mary, e quando ía a casa era uma festa e a mãe preparava-lhe… crepes. As imagens eram de fazer crescer água na boca, com geleia a escorrer para fora do crepe… 


Então voltando aos tempos do agora, cá vai a minha receita:
Junta-se no copo da batedeira a mesma quantidade de leite e de farinha, um ovo e uma pitada de sal. Bate-se e… já está! Claro que se quiserem fazer uma quantidade muito grande de crepes poderão adicionar mais um ovo. Eu faço com uma chávena grande de leite e outra de farinha. Para estas porções basta um ovo e dá para 10 a 15 crepes.
A preparação é óptima para dias frios, porque nos obriga a estar no quentinho do fogão por um bocado.
Vai-se forrando uma frigideira pequena com uma gordura qualquer (eu uso óleo e só adiciono mais umas gotas de 3 em 3 crepes, para não ficarem gordurosos). Depois de bem quente, adiciona-se a massa inclinando a frigideira para preencher o fundo. Quando aparecerem bolhinhas na massa tenta-se virar. Depois de alguns, já deve dar para tentar a manobra mais profissional de lançar o crepe e virá-lo no ar.
Mas com cuidado! Mantenha afastados animais de estimação, maridos e crianças nas primeiras tentativas.

E são bons para rechear com… tudo! Queijo, fiambre, compotas, mel… e a minha combinação preferida: manteiga polvilhada com açúcar e canela! Bom apetite!!!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Calor humano


Esperava eu nas salas de espera da vida, quando fui recordada, por uma amiga, que nem só nestes espaços o português mostra o seu espírito de partilha em amena comunicação com estranhos.
Lembrava ela que alguns do que esperam nas salas da espera “se sentam perto, demasiado perto, apesar de terem disponíveis trezentos mil lugares e, após alguns minutos, decidem iniciar um diálogo oco, sem sentido e/ou sem qualquer tipo de interesse. Nós lá vamos balbuciando um "pois", um" hum", um "ah", esboçando um sorriso amarelo. Não sei qual a razão mas não desistem, aliás, insistem em encadear tópicos de assuntos sem assunto nenhum!”Lembrei-me imediatamente de tais personagens, identificando-me em tudo com o eleito interlocutor (vulgo vítima) que passa a ansiar ainda mais que chegue a sua vez, mesmo que seja no dentista.
Ora comecei imediatamente a procurar uma explicação para tal facto, e talvez inspirada pela época do ano, pensei: é frio!
Mas logo tal ideia foi derrubada por outra, quando me lembrei de algumas situações em pleno Agosto…
Ah, férias em Agosto… uma das situações que me leva a ponderar mudar de profissão… O trânsito insuportável, as enchentes de gente por todo o lado, as misteriosas subidas de preço em esplanadas e bares… Crianças a guinchar… Palavrões em várias línguas…
Num destes Agostos estávamos, eu e uns amigos, junto a uma piscina. Toalhas e mochilas dispostas num relvado ainda quase vazio, quando de repente uma alegre família decide eleger para posicionamento de toalhas e afins, o espaço a cerca de UM PALMO das nossas coisas. Ficámos lado a lado, ao ponto de termos de nos mover com cautela depois de cada mergulho, para evitar molhar o vizinho. As conversas condicionadas… a tentação de mudar de lugar… E poderão pensar “Que mau feitio, devia ser o último lugar à sombra…” Não era. Aliás estive algum tempo a observar o relvado verdinho, vazio e tentador, para tentar perceber o motivo da eleição do nosso espaço em vez de qualquer outro. Não percebi. A única qualidade daquele espaço era de facto ficar perto de outras pessoas.
E esta é só uma das memórias que acalento. O mesmo se passou por várias vezes na praia, no comboio, no cinema. A busca de calor humano não conhece barreiras, nem locais, nem temperaturas.
Um dos poucos locais ainda preservados, segundo me contam os amigos do sexo oposto, é o WC masculino. Ao que parece, em cada fila de urinóis disponíveis, são preferencialmente ocupados os mais afastados entre si… Vá-se lá entender.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Salas de (des)espera


Às vezes somos convidados a esperar noutras salas, fora da nossa: as salas onde se espera. Desenganem-se os que acham que se esperará pouco: se assim fosse haveria UMA SALA para o efeito?
Estou então a passar algum tempo de qualidade numa destas salas e recordo-me que não gosto muito quando os outros fazem sentir demasiadamente a sua presença perto de mim.
No fundo da minha fila de cadeiras, um senhor já bocejou umas dez vezes. No fim de cada bocejo, sem cerimónias e de boca totalmente escancarada, o dito senhor solta uma espécie de gemido satisfeito, seguido de uma expiração ruidosa para rematar em beleza. Interrogo-me se devo aplaudir…
São para todos os gostos os artistas de sala de espera:
Os tambolireiros. Especializados na arte de bater com os dedos ou unhas numa superfície plana e sonora. Habitualmente criam um certo ritmo que deve, julgo eu, acompanhar uma melodia imaginária na cabeça do próprio. Para nós, que estamos de fora e não encomendámos o serviço musical, é a tortura. A cada pausa mais longa surge o alivio de pensar que o concerto chegou ao fim, mas logo a batucada seguinte nos mostra que não… Ainda não.
Os artistas do sapateado. Arte cada vez mais associada a homens de sapatos estranhos. Começa com um tímido bater de calcanhar que cedo evolui, com um entusiasmo quase infantil, para uma perigosa alternância entre calcanhar e biqueira do pé. Tende a acabar rapidamente após um ou dois olhares desencorajadores.
Os humoristas. Podem chegar acompanhados ou sós. Os primeiros são piores: já trazem plateia. Os outros vão tentando cativar um interlocutor na sala. Quando conseguem é o princípio do fim. Começa a lista de piadas sem piada, palavrões comedidos ou nem por isso, gargalhadas demasiado audíveis… enfim.
Há também o geme-quando-senta, o geme-quando-levanta, o range-cadeiras, o bufador-periódico, etc. E nem falei de telemóveis…
Quando esperarem numa destas salinhas, olhem em volta: todos esperamos, então esperem sossegadinhos e caladinhos e sem tantos ruidozinhos... Tem bichos-carpinteiros? Então leve-os a passear lá fora! O ar fresco faz maravilhas!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

1999, Vila Real em Novembro

Tinha de sair de casa.
Só dormi 5 horas mas tinha que me deixar envolver nesta luz branca e morna.
Ainda me dói a cabeça. Esta luz piora a dor mas não quero saber. Vou pelas ruas fora, sem destino certo.
Parece que ando com as pernas de outra pessoa. Sinto-me leve. Às vezes reprimo um sorriso teimoso que insiste em aparecer.
Um café com grandes janelas: cheguei. Peço uma água e o senhor repete o meu pedido para dentro do balcão, num tom demasiado alto que me fere os ouvidos. “Ainda bem que não pedi nada de embaraçoso…” penso para mim mesma.
Olho as pessoas que passam na rua sem que se apercebam dos meus olhares. Adoro.
As mesas têm tampos de vidro, por isso pouso o copo com muito cuidado.

(do livrinho dos disparates)